14.4.14

Resenha: O Perfume

Postado por: Stefanie


 Fiquei horas tentando pensar como poderia começar essa resenha. Como poderia definir esse misto de sensações que a obra me fez sentir. Pensei que “relação de amor e ódio” bem definiria. Mas “ódio” chega a ser tão extremo... Encontrei a paixão em grande parte, mas também pude achar algo que não fora bem ódio... Mas sim algo que vou chamar, aqui, de “decepção”, até quem sabe ser capaz de encontrar melhores palavras para resumir como foi a passagem desse livro na minha vida.





 “O Perfume”, de Patrick Süskind, conta a história de Jean-Baptiste Grenouille que fora praticamente cuspido ao mundo. Dono de um olfato apurado, aparência grotesca e de poucas palavras, fora praticamente jogado em ruas imundas e fétidas parisienses em 17 de julho de 1738.  Sua mãe engravidara quatro vezes. Nas quatro, as crianças simplesmente nasceram mortas, tornando-se parte de toda podridão da cidade. Engravidou novamente... E jurou de pés juntos que mais uma vez a criança não sobreviveria. Será? Ela, crente de que o seria, deixou-a embaixo da mesa, largada sobre os peixes podres. Só não contava que, ao levantar-se, o pequeno Grenouille abriria o berreiro, vivo, condenando a própria mãe à decapitação por múltiplo infanticídio.
 Abandonado, Grenouille é levado a uma ama de leite, que aceita criá-lo por alguns míseros tostões no final da semana que até ajudariam em sua miséria, se ela simplesmente não desejasse devolvê-lo. Sim, devolvê-lo. Com a única justificativa de que o menino está possuído pelo demônio. Afinal, apesar de ser capaz de não só identificar todo e qualquer cheiro, mas como também recriá-lo, Grenouille não tem um odor que lhe seja próprio. A partir dessa característica... A criança passa para as mãos de outra mulher que não se importa com isso, até porque quem é incapaz de sentir odores é ela, depois de sofrer tantos acidentes.
 Passado algum tempo, então essa nova ama decide vendê-lo por outros míseros tostões e é então que a atmosfera em torno do personagem se torna mais sombria. Justamente por conta de como, depois de tê-lo vendido... Percebemos que a criança transpassa uma espécie de maldição a todos aqueles que a abandonam. Tanto que o livro tem uma série de personagens coadjuvantes que servem como alguma espécie de degrau no desenvolvimento dessa personalidade tão distinta. Personalidade que se molda ao desejo insano de obter o mais perfeito cheiro para si, depois de, certa noite, apaixonar-se tanto por uma jovem que se vê capaz de matá-la e aspirar todo aquele perfume até que se veja satisfeito.
 E é então que nasce o nosso “assassino” que, aos meus olhos, não passa de um coitado rejeitado por todos desde que nascera.
 Há quem chame Grenouille de louco. Outros? Um perfeito serialkiller. Para mim? Uma pessoa amarga e rancorosa, que se agarra ao que tem de melhor para buscar por uma espécie de vingança que se mostra tão intensa... Que não vai se referir apenas àqueles que lhe fizeram mal. Grenouille quer mais. Quer vingar-se do mundo que lhe virara as costas. Vingar-se do mundo que, aos seus olhos, sempre o tratou como um ninguém que não servia mais do que para míseros favores.

"O Perfume" faz parte do #projeto1001 ♥

 O enredo, em certos pontos, me soa um tanto quanto monótono. Há momentos que, sob tanta descrição excessiva, me vi ligeiramente entediada. Entendo a necessidade da descrição dos aromas, do cheiro de todas as coisas... Mas há situações que a história se torna maçante, cansativa. Contudo, tenho de admitir que, por exemplo, logo no começo da narrativa, a descrição do cheiro da cidade de Paris é tão bem feita que foi como se eu pudesse senti-lo. Como se eu estivesse naquelas mesmas ruas.
 Porém, descrições tediosas à parte, foi em “O Perfume” que encontrei um dos personagens mais incríveis já criados. Grenouille é inteligente, é cativante. É um personagem que te provoca, que mexe com seus sentidos. É um malfeitor capaz de fazer você desejar acolhê-lo mesmo quando ele está matando alguém. Cada um de seus movimentos são friamente calculados, mas, nessa história, pelos próprios instintos. Como se seu corpo soubesse exatamente o que fazer, a partir do cheiro, sem que ele sequer precise pensar. Grenouille é... Incrível. Indiscutível e imensamente incrível.
 É por conta desses sentimentos tão contrários e distintos que gosto e desgosto da obra. “O Perfume” é tanto bom, quanto ruim. Talvez um pouco mais “bom” do que “ruim” justamente ao que se refere ao clímax da história que me deixou tão sem ar, sem direção, que me peguei o relendo por mais de quinze vezes seguidas, sem que alguma delas fosse menos envolvente, menos surpreendente, ou menos lindamente macabro de se acompanhar. Um final tão dilacerante que, mesmo agora, me vejo arrepiada só de lembrar.
 Eu indico a obra. Apesar dos pesares, indico. Até porque... Pelo o que andei olhando, a grande maioria das pessoas não só a amam de paixão, mas como também a colocam quase como à beira da perfeição. Não pra mim. O protagonista é incrível. A história é muito boa. Mas quanto à escrita e desenrolar do enredo... Peca em muitas coisas pra mim. Por causa disso me senti parcialmente decepcionada. 


Título: O Perfume
Autora: Patrick Süskind
Páginas: 280
Editora: Record/Altaya 
Nota: ★★★

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