14.8.14

Resenha: A Culpa é das Estrelas

Postado por: Stefanie



 O complicado não é resenhar um livro famoso. O complicado é resenhar um livro que todos o enxergam como a perfeição na terra.
 Menos você.





 “A Culpa é das Estrelas” não é o primeiro livro do aclamado John Green; mas, sem sombra de dúvidas, é o mais famoso. É nele que conhecemos Hazel Grace, uma paciente terminal com câncer. Porém, este tem consideravelmente diminuído, graças a um remédio em especial que funciona quase que especialmente para ela, permitindo-lhe um pouco mais de tempo e uma vida quase normal. Isso porque Hazel faz tudo o que uma garota sem o mesmo diagnóstico faz, só que com suas particulares, tomando os cuidados necessários para a preservação de seu estado de saúde. Inclusive, até mesmo acompanha um grupo de apoio para crianças que, como ela, têm câncer; e, apesar de não gostar das reuniões, é lá que ela conhece Augustos Waters, um garoto que vai movimentar completamente sua vida.
 A primeira vista talvez pareça só mais um livro de romance água com açúcar, no estilo “Um Amor para Recordar”, do também famoso Nicholas Sparks. Só que, com o decorrer das páginas... Ou melhor, das linhas – porque você não precisa mais do que algumas palavras para sacar o nível do livro – você percebe que praticamente não tem nada a ver. Tem sim o romance entre ambos, e todas aquelas descobertas da adolescência. Mas a personalidade deles, mais ainda de Hazel, chega a ser tão fútil e rasa que faz com que o relacionamento deles se torne tão sem graça quanto o livro propriamente dito.


 Veja bem, quero ressaltar que aqui não estou falando sobre o câncer propriamente dito. Que isso fique bem claro. Falo sobre a maneira como a protagonista chega a beirar a níveis do que eu chamo de insuportável. Hazel é egoísta, é maldosa, é até mesmo sem educação em muitos momentos. Há quem diga que esse comportamento adverso seja por conta da saúde, mas não enxergo, nela, aquele tom de arrogância de um personagem simplesmente amargurado, chateado com o que a vida fez consigo. Como é o caso de Peter Van Houten. Se essa era a intenção de John Green, ele deveria ter apagado e escrito tudo outra vez. Porque o que a protagonista dele esboça é só um comportamento muitas vezes hostil de uma adolescente que não se preocupa muito com o mundo ao seu redor.
 Logo no começo do livro, somos apresentados ao Patrick, que é o líder daquele grupo de apoio mencionado. É um sobrevivente do câncer, mas o desrespeito da protagonista com ele chega a ser tão tocável que em diversos momentos quis entrar no livro só para encher a cara dela de tapa. Quem sabe assim ela começa a respeitar as pessoas. Afinal, aos meus olhos, uma coisa é levar tudo com bom humor. Outra muito diferente é fazer piada de alguém que está querendo te ajudar, que está feliz em compartilhar como conseguiu se curar, mesmo perdendo uma parte do corpo. Cena esta que, logo no início, já me fez entortar o nariz para a tal Hazel, que realmente só demonstra o lado carinhoso dela com Augustos e seus pais e, estes, ela inclusive chega a falar coisas realmente complicadas que, de novo, não são justificadas por sua condição.

Bem, era assim que acontecia no coração do Senhor: os seis ou sete ou dez de nós chegávamos lá a pé/de cadeira de rodas, comíamos um pouco daqueles biscoitos velhos com limonada, sentávamos na Roda da Esperança e ouvíamos o Patrick contar pela milésima vez a história ultradeprimente e superinfeliz da sua vida — sobre ter tido câncer nas bolas e acharem que ele ia morrer, mas não morreu, e ali estava, já adulto, no porão de uma igreja na 137ª cidade mais linda dos Estados Unidos, divorciado, viciado em videogames, quase sem amigos, levando uma vida sem graça explorando seu fantástico passado com câncer, ralando para terminar um mestrado que não vai melhorar sua perspectiva de progresso na carreira e esperando, como todos nós, que a espada de Dâmocles traga para ele o alívio do qual escapou muitos anos atrás, quando o câncer levou seus testículos
p. 12

 Muitas pessoas dizem que John Green costuma fazer personagens nerds. Eu não acho. Não consegui ver muita inteligência em seus personagens, muito menos em Hazel. Na verdade, há até momentos em que ela começa a falar... Falar... E falar. E, quando você vai ver, ela simplesmente não disse nada.

— Por que comidas de café da manhã são comidas de café da manhã? — perguntei a eles. — Tipo, por que não comemos curry no café da manhã?
— Hazel, coma.
— Mas por quê? — perguntei. — Na boa, falando totalmente sério: por que é que os ovos mexidos passaram a ser exclusividade do café da manhã? Você pode colocar bacon num sanduíche sem que ninguém dê nenhum chilique. Mas no instante em que seu sanduíche ganha um ovo, vira um sanduíche de café da manhã.
Papai respondeu de boca cheia.
— Quando vocês voltarem, tomaremos café da manhã no jantar. Combinado?
— Eu não quero tomar “café da manhã” no jantar — respondi, cruzando os talheres no prato praticamente cheio. — Quero comer ovos mexidos no jantar sem essa concepção ridícula de que uma refeição que inclua ovos mexidos tem de ser café da manhã mesmo que seja hora do jantar.
                                                                                                                           p. 128

 Chata. Chata. Chata.


 Mas vamos sair um pouco de perto da Hazel, até mesmo por preservação mental. Porque ela é tão chata que, inclusive, sinto que ela ofusca o que tem de bom até mesmo no outro protagonista, Augustos. Porque se tem um ponto de inteligência que consigo enxergar em algum dos personagens, é nele. E é aqui que vocês veem que, não, não vou só falar mal de “A Culpa é das Estrelas”. Reconheço seus pontos positivos, mesmo que sejam poucos e um deles, com certeza, são certas atitudes de Gus. Principalmente a maneira como ele brinca com metáforas durante as páginas. Ao que eu me refiro? Digamos que o personagem seja um fumante que não fuma. Isso porque, durante o decorrer do dia, ele praticamente vive com um cigarro na boca, mas nunca o acende. Quando perguntado sobre o motivo, ele responde que deixa algo que mata alcançá-lo, mas sem dar-lhe o poder de concluir o serviço. Dessa maneira, ele consegue até mesmo se sentir mais dono de sua vida, por ter o direito de escolha de permitir que algo lhe faça bem, ou não. Sinceramente, gostei disso. Não pelo cigarro propriamente dito, mas sim pela maneira como podemos facilmente comparar essa atitude como a várias outras que todos nós mesmos fazemos diariamente, de ter o poder de escolha. Então se John Green teve vontade de fazer com que algo soasse realístico. Tá lá. É isso.


 Porém, entretanto, todavia, apesar de algumas respeitáveis ideias de Gus, tenho que admitir que o melhor personagem nesse livro todo é Isaac. Um garoto também do grupo de apoio, com câncer nos olhos. Ele sim é engraçado sem ser cretino. É cativante sem ser cheio de si. É real sem ser forçado. O que nos presenteia com cenas que realmente valem a pena serem lidas. Porque se tem alguém nesse livro que tem aquele poder de humor negro, sem ainda soar extremamente escroto, é ele.
 Isaac, sou sua fã.
 Mas os pontos positivos param aí.
 “Duvido que você não tenha se emocionado com o livro”, me perguntaram. Sim, o final me arrancou certa comoção, principalmente com a imensa reviravolta. Mas até mesmo esses momentos me soaram forçados. Como se o Senhor Green os tivesse planejado não para que soassem naturais. Mas para que soassem o mais dramático possível. Se ele consegue? Tanto que em diversos momentos realmente reli alguns pontos, pra ver se ele estava falando sério ou se simplesmente queria tirar uma com a minha cara. Mas qualquer um que leia pode notar que ele é extremamente forçado. Que ele não está querendo escrever algo para retratar a realidade da vida de pessoas com câncer, mas sim de soar o mais trágico possível. Como se o objetivo dele não fosse criar um bom livro, mas sim, quase como uma obrigação, tentar reproduzir uma cena dramática que faça as pessoas chorarem.
 Bom, se essa era a intenção dele, conseguiu. Me lembro até hoje de entrar no banheiro do cinema, depois de assistir Malévola, e encontrar um grupo de adolescentes chorando, ao ponto de soluçar, no cantinho.  Sério. Cheguei a ficar com dó. Naquela época ainda não tinha lido o título, e admito que fez com que me sentisse um tanto quanto curiosa demais e, pensando agora... Talvez seja isso que fez com que tantas pessoas comprassem o livro. Curiosidade. O que tem nesse livro com legiões de fãs? O que diabos tem entre essas palavras que faz com que tantas pessoas chorem, arranquem os cabelos, sofram?
 Pra mim? Nada.


 Os pontos positivos desse livro poderiam ser encontrados em outros lugares, até mesmo de um jeito melhor. O que não faz de John Green um gênio, só um cara simpático que teve uma grande sorte, ao menos aos meus olhos. Reconheço que muitos gostam, mas pra mim é um livro indiscutivelmente bobo. Mais uma vez, não falo da doença em si, mas da maneira como o enredo é narrado, como ele se desenrola. Não é a história. São os personagens. É uma protagonista problemática e irritante. São falas cruas e sem sentido. É uma comoção forçada. É um drama muitas vezes irreal. É um autor que escreve de um jeito vazio e simplório, que dita palavras calculadas, e não sentidas. Tanto que sinto como se, as poucas que me alcançaram, foram pelo mérito da própria ideia, não de seu desenvolvimento.
 Você gosta de “A Culpa é das Estrelas”? Tudo bem. Cada um com seu gosto. Mas, pra mim, passa longe de ser o que eu considero um bom livro. Talvez se John Green tivesse trabalhado melhor com as palavras, forçado um pouco menos, e mudado certos traços na protagonista – principalmente ao que diz respeito à educação -, quem sabe. Mas, desse jeito, não rolou pra mim.

 E, por favor, alguém tire o Isaac desse livro. Ele é muita areia pro caminhão do John Green.


Título: A Culpa é das Estrelas
Autor: John Green
Páginas: 283
Editora: Intrínseca
Nota: ★★

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