4.1.15

Resenha: A Vida do Livreiro A. J. Fikry - Gabrielle Zevin

Postado por: Stefanie


 O momento de se resenhar um livro sempre desperta em mim um sentimento dubio. Às vezes eu amo fazê-lo logo ao acabar a leitura. Em outras vezes? Odeio com todas as minhas forças.
 Sou do tipo de leitor que acha necessário absorver a história antes de querer falar a respeito, mas existem livros que mexem tanto com a gente, mas tanto, que nos pegamos incontrolavelmente ansiosos em tentar colocar tantas sensações em palavras. Se é um bom momento? Provavelmente não, mas não consigo deixar para depois.
 “A Vida do Livreiro A. J. Fikry” conta a história do Senhor que nomeia a obra, o qual, depois de perder a esposa em um acidente de carro, vê sua vida perder todo o sentido. Tanto, que o homem acaba dividindo os períodos de trabalho, na própria livraria, sem muitas visitas, com incontáveis doses de álcool, chegando a um ponto em que realmente não consegue mais entender o porquê de se estar vivendo. Até que um dia, após mais um dia frustrante, A. J. encontra, dentro de sua livraria, uma criança abandonada.
 Se ele pensa em entregá-la para a adoção? Diversas vezes. Inclusive tenta. Mas de alguma maneira aquela menina, Maya, desperta algo em si que não sentia há muito, muito tempo. De repente A. J. diminui a quantidade de álcool. De repente o livreiro rabugento, solitário e mal humorado passa a tentar reconstruir a vida da pequena abandonada, sem se dar conta de como, em resposta, é ela quem desperta em si novos motivos para viver.
 O livro é sutil, não no sentido negativo da palavra. Se pudesse compará-lo a algo... Diria que mais se parece com o oceano em um dia calmo. É bonito. Você não consegue parar de olhar. Te prende. E você não entende porque te atrai tanto, se é só um monte e monte de azul pacífico. Mas basta você olhar com um pouquinho mais de atenção, não para o horizonte, mas sim para dentro dele, para ver que é muito mais profundo do que você sequer um dia poderia alcançar.
 A vida de A. J. é assim. De repente você começa a descobrir diversos elementos que parecem sutis, mas acabam tendo uma profundidade e intensidade imensas quando recebe a devida atenção. Sinceramente? É um dos livros mais bonitos que li nos últimos meses, e agradeço por ter começado o ano com algo tão tocante. Algo que me causou risos sinceros, felicidades indescritíveis, emoções incontroláveis, e que ainda roubou um pouquinho de mim com o final.

 Okay, talvez um poucão.


 A obra inclusive menciona diversos outros livros e autores incríveis durante todo o texto. Mas não poderia ser diferente tratando-se de uma obra que conta a vida de um livreiro, não é? O diferencial aqui é o quanto as mesmas não surgem entre as palavras como simplesmente meras menções. O que acontece na obra sempre se interliga às histórias mencionadas, fazendo com que se tornem ainda mais profundas e significativas. Às vezes até mesmo engraçadas, como é o caso de quando A. J. está discutindo com Amelia sobre o porquê de odiar e-readers e, ao ser rebatido com o questionamento: “Sabe o que é bom nesses aparelhos?”, o livreiro não pensa duas vezes em responder:
 “Não, Pollyanna, e não quero saber”.

 Quem nunca se viu fazendo o jogo do contente, não é?



 Se o livro é toda perfeição? Não. Mesmo agora, tomada por tantas sensações intensas que me tiraram até mesmo lágrimas dos olhos, sou firme em dizer que a obra traz pontos que inclusive me chatearam um pouquinho. Algumas passagens que me soam até mesmo cruéis, apesar de humanas. Porém, sobretudo, não estragou o livro em si e tanto quanto o indico, sem pensar duas vezes. É uma bela história que merece ser lida. Até mesmo por aqueles que gostam de um livro leve, mas que ainda causa sentimentos tão vivos. Inclusive, agora depois de acabar... Entendo mais ainda o porquê da citação inicial.
 Sem dúvida... É quele livro que te dá até mesmo vontade de reler. Para recolher passagens que fizeram ainda mais sentido quando se chegou ao final.
 Mas, antes de ir, só vou deixar aqui uma pequena citação, de uma obra importante dentro da própria obra, que acho que mais define sua essência do que toda e qualquer outra palavra:

“É o medo secreto de que não é possível sermos amados o que nos isola”, diz a passagem, “mas é apenas porque estamos isolados que pensamos não sermos amáveis. Certo dia, não se sabe quando, vai estar dirigindo por uma rua. E certo dia, não se sabe quando, ele, ou ela, aliás, estará lá. Será amado porque, pela primeira vez na vida, realmente não estará solitário. Terá escolhido não estar solitário.”
A Vida do Livreiro A. J. Fikry p. 114

Título: A Vida do Livreiro A. J. Fikry
Autora: Gabrielle Zevin
Páginas: 186
Editora: Paralela
Nota: ★★

Nenhum comentário:

Postar um comentário



Design e Desenvolvimento por